Sessão de Culto #25: Eraserhead (Ciclo David Lynch)

Começamos hoje o ciclo dedicado a David Lynch, ciclo esse que se prolongará pelo mês de Maio na nossa Sessão de Culto. Cada semana teremos um convidado para um determinado filme. A inaugurar temos a obra de estreia de Lynch, Eraserhead, e temos um texto do nosso primeiro blogguer convidado, nada mais nada menos que o já lendário Pedro CinemaXunga, do blogue CinemaXunga.net.

eraserhead_ver2Coincidiu a estreia deste filme em Portugal, 17 anos depois do lançamento nos EUA, com uma fase de mudança pessoal. Os excessos dos tempos de faculdades, as novas amizades, as gajas mais sofisticadas, os rituais rebeldes, obscuros e a permanente insegurança de puto estúpido. Uma efervescência nunca vista desde a puberdade. A música de sempre começou a soar-me banal e o meu amado cinema começava a parecer-me demasiado inanimado e ideologicamente flácido. Na primeira metade dos anos 90 Hollywood testava um novo modelo de cinema comercial, o blockbuster a esteroides. Novos sistemas de som, novas técnicas de efeitos especiais iniciadas pelos fenómenos Terminator 2 e Jurassic Park. Tudo bonito e brilhante mas demasiado formulaico para uma fase da vida em que se pegam pelos cornos os mais enraizados dogmas.

large_eraserhead_blu-ray_x02De narinas abertas, inalando feromonas e outras princípios activos que não abonam em prol de nenhum chefe de família, procurei mudança. Estamos a falar de uma altura em que não se podiam escolher related movies no IMDB, não havia as listas exotéricas do tasteofcinema ou comunidades fervilhantes para os mais incomuns nichos. Na minha ida semanal ao cinema, à segunda de cartão jovem (ou cartão de estudante) deparei-me com um ciclo na sala pequena do agora extinto CineTeatro Avenida. Que coisas tão fabulosas, tão offbeat. Algumas delas tinha lido coisas no Blitz e outras publicações, outras duvido que as próprias mães dos realizadores conhecessem. Fui a quase todas, sozinho. Os meus amigos cinéfilos não embarcaram nesta parvoíce de busca pessoal. À maior parte deles bastava-lhe umas rajadas de metralhadora num centro comercial, um fervoroso coito nos primeiros 15 minutos ou um porradão de meia hora no final para ter um rico filmezinho. A mim também, não me vou armar em superior, mas haviam umas jeitosas que iam e…bom. Continuando.

eraserhead3Um desses filmes foi Eraserhead. Nada que tinha visto na vida me tinha preparado para esse impacto, para ser pontapeado nos maxilares com a força de mil mulas, para ser arrastado pelos mais estéreis desertos emocionais e largado extenuado aos pés de um pitbull conceptual e figurativo mas igualmente impiedoso. Estas são as sensações que me invoca Eraserhead numa primeira aproximação à memória que tenho dele, guardado num lugar muito negro do meu cérebro, aquele mesmo sítio onde os traumas que nos fazem medrar e superar patamares evolutivos, o baú das dores do crescimento. É certo que tinha visto e idolatrado Twin Peaks e que estava preparado para alguma exorbitância estética e narrativa. Só que nada nos prepara para estas coisas.
eraserhead1Um dos factores que mais me desgastou foi a banda sonora, ou a música ou o raio que o partam que lhe queiram chamar. Martelou-me os sentidos, tornou-me tabula rasa para o que o senhor Lynch cá quisesse escrever. O protagonista, esse pobre desgraçado, o homem comum, um bom cidadão, a querer apenas uma vida normal e dentro dos parâmetros da decência, sobreviver sem sobressaltos. O destino, essa atribulada sequência de eventos medonhos escritos sob a pena tortuosa deste semi-deus do cinema, não parecia sorrir ao nosso protagonista que via a sua demanda por normalidade pejada de surrealismo e as mais bizarras referências sexuais alguma vez colocadas num filme.

eraserhead-1977-07-gO ponto alto do filme, na opinião deste desgastado escriba, é quando nos apresentam o seu filho, uma criatura com ares de frango de churrasco que merece o seu amor. Como um normal filho, como todos nós que amamos os nossos filhos incondicionalmente para além de qualquer racionalidade mesmo que os nossos vizinhos e familiares os achem um pirralhos insuportáveis.

eraserhead+dinnerNão foi apenas o penteado de Spencer a dar-me pesadelos. Aquela medonha atmosfera não foi criada para deixar ninguém à vontade. A sala estava meio cheia. Professores da faculdade de letras, estudantes em busca daquilo que também eu procurava, malta que parecia saber sempre tudo e não se impressionava com nada, as namoradas enojadas que olhavam com repreensão quem para ali as arrastou e as desistências que foram bastantes. Pé ante pé, lá iam algumas alminhas saindo em busca de ar fresco e um pouco de paz espiritual. Eu ali fiquei até ao fim, porque nunca saí de um filme a meio, mesmo que não tenha pago para o ver.

EraserheadUmas das vantagens de Eraserhed (e de Lynch em geral) é que o nosso cérebro nunca pode processar grandes fobias, traumas ou complexos para o futuro uma vez que muitas das coisas que acontecem são inexplicáveis verborreais visuais que só Lynch sabe explicar. Sabe mas não explica porque o segredo é a alma do negócio.

mp2É certo que cada um dos que está a ler este texto já viu Eraserhead e tem as suas próprias conclusões tiradas. Serão diferentes das minhas, é certo, mas garanto que todos as têm (as opiniões) bastante fortes e demarcadas num sítio da mente que nem o Alzheimer limpa. Um filme que em última instância poderá ser usado em campanhas de abstinência sexual com garantia de 100% sucesso.

Concluíndo, é uma das minhas referências cinéfilas, um dos filmes da minha vida. Vão à vossa vidinha que esta merda não pode ser só filmes. Beijinhos do tio.

eraserhead_stillNota cronológica: Apesar de ser um filme de 1977 só veio a estrear em Portugal em 1994 com o título super fofo de “No céu tudo é perfeito”. Foi nesta altura que o vi, porque em 1977 andava ainda a aprender a mijar de pé.

Trailer:

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One response to “Sessão de Culto #25: Eraserhead (Ciclo David Lynch)

  1. Já tive oportunidade de escrever sobre ele no meu blogue. É um filme incrivelmente perturbador. Uma coisa que nunca me esquecerei é o som, poucas vezes o som foi tão poderoso num filme.

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